Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A minha família

por MC, em 28.02.16

A minha família

Eu gosto muito da minha família. A minha família é boa. Na minha família somos muitos e gostamos uns dos outros. Dantes éramos só eu, o pai e a mãe, mas agora a avó Becas e a tia Vanessa também mudaram cá para casa porque a tia Vanessa zangou-se com o noivo e afinal ele já não quer casar com ela e ele deve estar muito furioso com ela porque atirou as coisas dela pela janela e a tia Vanessa gritou muito quando andava de cu para o ar a apanhar os sapatos e as meias e as camisolas no passeio e gritou ainda mais porque as cuecas caíram para trás do contentor da rua e ela chamou-lhe c*brão de m*rda roupas tão caras mal empregadas ficaram todas estragadas e chamou muitos nomes feios à mãe do seu noivo e a ele também. A avó Becas ainda tentou acalmá-la e fez-lhe festinhas e disse-lhe deixa lá filha foi melhor assim que tu és boa demais para aquele grunho que não sabia dar-te valor e sempre que me encontrava no corredor fazia aqueles olhos de charroco enjoado e tratava-me sem respeito nenhum apesar de eu ser praticamente um ano mais velha que ele.

Foi assim e agora a avó Becas dorme no meu quarto e a tia Vanessa fica no sofá da sala e isto é uma coisa boa porque a mãe diz que a família deve estar sempre em primeiro lugar e está sempre a lembrar ao pai que temos de estar lá uns para os outros e eu percebo que o pai não concorda assim tanto com aquela parte de “estar lá” porque ele revira muito os olhos e às vezes eu vejo que ele dá pontapés e diz f*da-se quando tropeça nos sacos de roupas da avó Becas e às vezes quando ele está no sofá a ver os apanhados e a mãe diz que é hora de as pessoas descansarem que é para ele desopilar do sofá e não lhe traz mais nenhuma jola o pai enerva-se e atira com o pires das cascas das pevides e também diz outra vez f*da-se.

Eu cá gosto de viver com a minha família e não me importo nada de estarmos mais apertadinhos porque agora quando o pai e a mãe se zangam já não gritam tão alto e o pai já não dá tantas chapadas na mãe quando está com os nervos. O meu pai é bonzinho mas muitas vezes irrita-se com a mãe e espeta-lhe umas galhetas, mas é porque ele gosta muito dela e fica chateado quando ela o contraria. Eu dantes escondia-me atrás do sofá quando eles andavam à bulha e ficava lá a pensar que era muito estranho isso de gostar de uma pessoa e mesmo assim aviar-lhe uns bananos, mas agora já percebi que sim senhor deve ser verdade, porque às vezes quando a tia Vanessa está na casa de banho a pintar os olhos ou a esticar o cabelo o pai passa e dá-lhe uma palmada com força no rabo e ela dá um grito mas não fica zangada, ri-se para ele e vê-se que eles dão-se muito bem. A minha família é fixe.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:59

Friendly fire?

por MC, em 26.02.16

O cartaz do BE é inoportuno. É mau marketing. O enfoque é negativo, seja qual for o ponto de vista: não é empático para com os católicos, não é simpático para a causa da adopção gay. 

É despropositado no timing, é despropositado sobretudo vindo de quem vem. Daqui de onde o vejo, parece-me apenas um tiro palerma no pé ideológico. Ou eu não percebi nada disto, ou é mesmo o BE a apresentar como argumento oficial a existência de Deus?

 

 

Anglican-Church-Gay-People-.jpg

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:47

Dores

por MC, em 21.02.16

A madrugada chuvosa e macilenta de Domingo apanha-a encostada à janela da cozinha, uma caneca de chá nas mãos geladas, o barrigão encostado ao parapeito frio, as cruzes a latejarem de dor. A tábua de passar está montada no meio da marquise, pilhas de roupa simétricas e meticulosamente dobradas ocupam toda a mesa da cozinha, há ainda uma imensa torre desalinhada no açafate cor de laranja.

A chuva persiste há um par de dias, as gotas pesadas e constantes a tamborilarem-lhe no ânimo, aquela moinha paulatinamente a crescer-lhe nas costas e a espalhar-se-lhe pelo corpo como uma trepadeira. Há duas noites que não dorme de jeito, que se incomoda com o mais leve voltear dos braços, que lhe parece ter o corpo desencaixado na dobra da cintura que já não tem.

Um gemido cavo desperta-a da dormência e fá-la atravessar a cozinha em direcção à sala, naquele andar desengonçado de pato anafado. O homem afunda-se no sofá, soterrado por cobertores revoltos, o nariz inchado e vermelho, a contrastar com a tez macilenta. Debruça-se pesadamente sobre ele e toca-lhe no braço com suavidade. “Zé”, murmura-lhe: “isto não passa de hoje, Zé, estou a ficar cheia de dores.”

“Estou a sentir-me tão mal, querida… acho que tenho febre”, queixou-se com voz fanhosa. “Ora vê lá, põe aqui a mão, não achas que tenho febre?” Inclina-se um pouco mais para lhe tomar o calor da testa, mas uma dor fina e maldosa ferra-lhe nos rins e obriga-a a amparar-se no braço do sofá. “Sim, estás um bocadinho quente… mas olha, acho que vais ter mesmo de levantar-te.”

“Ai querida, havia de tirar a febre, estou a sentir-me tão doente… podes chegar-me o termómetro, por favor?”, choraminga, os olhos a lacrimejar.  A ‘querida’ respira fundo, a tentar controlar a ansiedade que lhe entope a garganta, as dores a alfinetarem-lhe as costas, passinhos cautelosos e bamboleantes a caminho do armário dos medicamentos.

“Vês? Vês? Eu bem te disse: trinta e oito e dois! Ai que me sinto tão quebrado!”

Apoia-se nas costas da cadeira, as guinadas intensas a roubarem-lhe o fôlego, pequenas pérolas de transpiração a brilhar na testa, a humidade do suor a colar-se-lhe à pele, como se uma chuva quente a inundasse. Olha para baixo e apercebe-se da natureza do dilúvio: “ó Zé, vamos, depressa, rebentaram-se a águas!”

O Zé levanta a cabeça do sofá, atarantado e ranhoso. Ergue-se lentamente e cambaleia, derreado pelos trinta e oito (ponto dois) graus de febre. “Não consigo, querida. Mal consigo mexer-me, quanto mais conduzir!”, lamenta-se, os braços levantados em prece indignada: “olha o que havia de me acontecer!” E perante o olhar recriminador dela, dobrada sobre si própria, a alternar o peso do corpo redondo e dorido entre uma e outra perna, os chinelos encharcados a chapinhar, as sobrancelhas acusatória e furiosamente levantadas, ainda remata: “ó querida, desculpa lá, não olhes assim para mim, então eu tenho alguma culpa de estar doente? Não és só tu que estás a sofrer, ok? Um bocadinho de compreensão, não?!”

A ambulância é um modelo antigo e pouco espaçoso. Ao lado da maca encaixam-se alguns aparelhos médicos e uma pequena cadeira de mola de onde o bombeiro encorpado monitoriza o estado da paciente. À frente, no banco contíguo ao do condutor, o Zé vai oscilando ao sabor dos balanços da condução, mole, enrolado num cobertor, cabeça encostada ao vidro.

A porta da urgência abre-se assim que a ambulância se imobiliza no átrio. Os bombeiros abrem rapidamente as portas e fazem deslizar a maca com a celeridade que se impõe. Ela ainda tem tempo de se soerguer e chamar, atordoada e atónita: “Zé?! Ó Zé, então?!” Ainda o vê, embrulhado e a dormitar, encostado ao vidro. Depois, a porta fecha-se atrás dela e uma contracção golpeia-a à má-fila, forçando-lhe um grito. Agora sim, vão começar as dores a sério. Talvez assim ela venha a dar valor ao sofrimento de um homem com febre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:23

Chiça

por MC, em 20.02.16

No mesmo dia Harper Lee e Umberto Eco? Porra. 

 

estendal httpwww.mariagiron.com.jpg

(Ilustração de Maria Giron)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:53

Tapete voador

por MC, em 19.02.16

books editorial presença.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:24

João (2)

por MC, em 14.02.16

 

Ao almoço de Domingo, a ampla cozinha do centro de acolhimento fervilha de mãos ajudantes. Na mesa, vão-se alinhando os pratos e copos de plástico colorido, como manjericos enfileirados na banca do arraial. Depois chegam os jarros de sumo e os cestos do pão, o último volteio da colher no tacho do arroz. Na televisão, uma senhora de voz nasalada diz coisas acerca da adopção por casais gay, numa dissertação morna, alternada com segmentos de reportagem na via pública, onde os cidadãos são chamados a dar a sua opinião.

Os garotos já estão todos sentados à mesa e a dona Alice percebe a atenção velada dos mais crescidos ao tema em apreço. Há cotoveladas e risotas cada vez que a palavra ‘gay’ é proferida, as miúdas mais velhas cochicham graçolas, os mais pequenos, alheados, depenicam no pão.

“Ó João”, diz a mais velha das adolescentes, “é desta que vais ser adoptado!”

O João olha para aquela irmã de armas temporária que a vida lhe pôs ao caminho com uma expressão que tenta emoldurar de normalidade, para que ninguém lhe perceba o coração na boca. “Achas?”- pergunta-lhe no tom tranquilo que tem treinado para qualquer eventualidade.

“O João vai ser adoptado?”, pergunta uma pequenita de franja demasiado curta e desnivelada, resultado evidente de um corte artístico de sua autoria, olhando-o com enternecimento.

“Pode ser que sim”, torna a rapariga, “e pode vir a ter dois pais ou duas mães”, conclui, como quem tira um coelho da cartola. A pequenita não apreendeu, contudo, o dramatismo intencional da tirada e ponderou, com sincera ingenuidade: “duas mães? …eu já tive uma, mas agora já não tenho porque ela foi para o céu… mas tenho duas primas.” E depois de mais uns instantes de reflexão, concluiu, na sua vozinha cristalina de uma mão mal cheia de anos: “eu cá não me importava nada de ter duas mamãs. Tu importavas-te, João?”

O João acaricia-lhe distraidamente o cabelo, os pensamentos a mil à hora, o corpo a tentar digerir um mundo de possibilidades ali entalado na garganta. “Isto é verdade, dona Alice?”, pergunta meio sem jeito, envergonhado por mostrar interesse no assunto. “Os gays vão poder adoptar crianças?»

A dona Alice olhou a plateia imprevisível à sua frente, respirou fundo e assentiu: “sim, é verdade.”

“E eles vão querer ficar com as crianças que os outros casais não querem?”, continuou o João, arriscando a despojar-se do seu habitual tom desprendido por um assunto tão caro para si. “E os gays vão poder escolher as suas crianças, como os outros casais, ou vão ter que aceitar aquela que o juiz lhes der?”

“Ó João, não se pode pôr as coisas nesses termos, filho”, corrigiu a dona Alice, “não se trata de um sorteio nem de uma obrigação, é claro que os casais gay também vão poder escolher a criança que querem”. 

O João respirou fundo, totalmente despido da película protectora de descaso com que se embrulhava mal abria os olhos todas as manhãs, arrebatado perante a ideia de que alguém pudesse escolhê-lo como filho - precisamente a ele, e declarou, indiferente aos olhares jocosos das miúdas mais crescidas: “pois então, se algum casal gay ME escolher, eu também vou de certeza querê-los a eles!”

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:54

Estendais

por MC, em 11.02.16

roupa.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:48

João

por MC, em 07.02.16

O João, dez anos acabados de fazer, todos eles vividos em instituições, é o mais recente residente deste centro de acolhimento. A mãe, toxicodependente desde a adolescência, voltou grávida de uma viagem à boleia pelo norte da Europa e morreu poucas semanas depois do parto. Dela, nada se lembra: teve em tempos duas fotografias que o auxiliavam nos sonhos, mas que desapareceram algures entre as carruagens da vida. O pai, de quem herdou o cinzento marítimo do olhar e a aparente placidez dos gestos, ninguém sabe quem é. Todos os seus pertences, que debandam de poiso em poiso conforme as voltas do carrocel institucional, cabem num saco escuro e desbotado de desporto. Só há uma coisa que é cara ao João, como de resto, à maioria dos meninos institucionalizados: a possibilidade de ter uma família.

Desde que se lembra, o seu mundo foi sempre partilhado por muitas vozes, habitantes em camas pequeninas alinhadas ao lado da sua, pessoas a chegar e a partir, prestadores de serviços a cumprir as suas funções e a voltar para suas casas ao fim do dia, para os desvelos não remunerados às suas famílias, a transitoriedade da vida sempre a desfilar à sua volta, como numa imensa central de comboios.

O mais perto que esteve de uma família foi quando conheceu a D. Piedade, cozinheira do centro ia para mais de trinta anos. O João apaixonou-se irremediavelmente por aquele colo quentinho e almofadado, pelas mãos gorduchas e brandas que lhe revolteavam o cabelo e lhe davam pequenos petiscos na mansidão das tardes, quando os mais crescidos estavam na escola, pelo cantarolar constante que o apaziguava e adormecia, pela voz musical de avó perfeita que adivinhava nela – intuía, apenas, porque o João nunca tinha conhecido uma avó.

Quando a D. Piedade se aposentou e regressou à sua aldeia, o João minguou e emudeceu, morreu de desgosto uma e outra vez, morreu muito, todas as noites, sozinho na sua cama rodeada de gente, chorou a perda de algo que nunca fora dele.

Por duas vezes fugiu do centro, pegou nas tralhitas e lá foi, mundo fora, à procura da sua D. Piedade. Da primeira vez, pilharam-no logo ao fim de pouco tempo, ia a pé, na berma da autoestrada, saco encardido ao ombro, a caminho da felicidade. Na segunda, já mais sabido, não voltou a aproximar-se daquele local aziago, ficou a saber que não se pode andar a pé numa autoestrada, tudo bem, aprendia rápido as suas lições.

O segundo plano tinha pernas para andar: descobriu que havia uma estação de comboios que tinha o nome da aldeia que procurava e pôs-se em marcha. Caminhou pela linha do comboio durante dia e noite, peregrino incansável e insone, até ser visto por uns agricultores que estranharam o insólito e alertaram as autoridades. Quando o encontraram, tinha calcorreado mais de metade da centena de quilómetros que o separavam do sonho.

O senhor doutor juiz recusou-se a ver-lhe o engenho e só encontrou destempero e insensatez onde podia ter vislumbrado o amor; não foi em cantigas e logo ali o transferiu para o lado oposto do país.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:03

Estendais antigos

por MC, em 05.02.16

Rua dos Fanqueiros (esquina Rua do Amparo)

 Rua dos Fanqueiros, esquina com a Rua do Amparo 1930

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:10


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

foto do autor


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D